MANIFESTO

2026

Em tempo de guerra, é urgente lutar pela Paz

Damos a palavra ao Manifesto lançado pela OTC - Organização dos Trabalhadores Científicos:

https://www.change.org/OTC-MANIFESTO-CIENTISTAS_CONTRA_A_GUERRA

Texto da versão portuguesa

MANIFESTO:
CIENTISTAS CONTRA A GUERRA
PELA PAZ, A COOPERAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO

Vivemos tempos difíceis e perigosos neste nosso planeta, único corpo celeste natural onde há conhecimento da existência de vida. Como mulheres e homens de ciência, conhecemos o impacto do conhecimento científico sobre a sociedade, as vidas de cada um dos seus membros e sobre a natureza em geral. Sabemos que a ciência é uma arma de dois gumes que nos remete para o simbolismo bíblico da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Os avanços da ciência fundamental traduziram-se no acelerado desenvolvimento tecnológico que se acentua a partir de meados do século passado e prossegue nos nossos dias. A posse de novos meios para se impor pela força, veio exacerbar a competição entre interesses poderosos que determinam o posicionamento dos Estados-nação na arena internacional na procura pelo controlo de territórios e recursos naturais.
A arma nuclear, utilizada pela primeira vez nos momentos finais da II Guerra Mundial, criou uma situação nova: a possibilidade de, por acção humana, ser posto fim à vida na Terra. O holocausto nuclear é uma ameaça existencial que não deve ser ignorada, tanto mais que no passado o desastre esteve próximo de acontecer por erro humano ou falência técnica. Os múltiplos conflitos em curso, activos ou latentes, a evolução da guerra dita convencional para as formas “modernas” de guerra híbrida ou assimétrica, claramente fruto da aplicação perversa de avanços tecnológicos que a ciência proporcionou, não contribuem para atenuar antes aumentam os riscos de um desvio insensato para o recurso à arma nuclear. Para lá, naturalmente, do cortejo de vidas perdidas e da destruição de bens materiais que toda a guerra envolve mesmo sem esse recurso. O tempo presente, importa notá-lo, é marcado, infelizmente, pela total desconstrução do edifício penosamente erguido nos anos da chamada “guerra fria” e da década que se lhe seguiu, dos tratados bilaterais entre as duas maiores potências nucleares, base da chamada dissuasão nuclear. Hoje assistimos a uma crescente tendência para a militarização das economias que fortalece os complexos militares-industriais movidos pelo lucro e alimenta um ciclo global de conflito, guerra e proliferação de armas. Ciclo desastroso em que são investidos meios e recursos sem comum medida com aqueles que, casuística e tantas vezes irregularmente, são dirigidos ao combate às profundas desigualdades sociais, às privações de toda a ordem de que sofrem no seu dia-a-dia milhares de milhões de seres humanos, das necessidades alimentares, à saúde, à educação. Carências agravadas pela repetição de eventos climáticos extremos, atribuíveis à actividade humana, que se traduzem em perdas significativas de vidas e danos materiais com profundas repercussões sociais, sobretudo nos países mais pobres.

Acresce que, reconhecidamente, a guerra, os múltiplos conflitos militares – de escala e natureza diferentes - bem como a própria operação de dispositivos militares, mesmo em contextos de ausência de guerra, contribuem significativamente para o agravamento das condições que impulsionam as alterações climáticas.

Entramos num círculo vicioso em que as armas e o rearmamento não são garantia de Paz, mas estímulo de guerra. Nada poderá levar a dissipar as nuvens escuras que se formam e mantêm sobre as nossas cabeças sem um entendimento entre potências que leve a um novo tipo de relacionamento assente no respeito dos interesses vitais das partes envolvidas. 

Dada a escala dos perigos actuais e potenciais, inacção e aparente neutralidade, equivalem a uma cumplicidade passiva. Como cientistas, intelectuais, formadores, e cidadãos, temos o dever, não só de dar o alarme, mas também de nos envolvermos activamente nos esforços necessários para fazer face a ameaças actuais e futuras. A História julgar-nos-á pela nossa capacidade de resistir à lógica da destruição que rege o presente e de construir as condições para um futuro justo, pacífico e viável para todos.