Nos 71 anos do falecimento de Bento de Jesus Caraça

Relembrar uma data não deve ser só um gesto formal mas deve implicar algo mais que venha dar sentido a esse acto. Relembrar o nome de Bento de Jesus Caraça no dia 25 de Junho, dia dos 71 anos do seu falecimento, é relembrar a sua pessoa e obra, é ter presente os objectivos que nortearam a sua vida e o exemplo que ele foi para os seus contemporâneos e para as gerações seguintes.

Bento de Jesus Caraça fez parte de uma plêiade de intelectuais e cientistas, como António Aniceto Monteiro, Manuel Valadares, Ruy Luís Gomes, e Abel Salazar, entre outros, que nas condições difíceis de uma ditadura não hesitaram em proceder de acordo com as suas convicções, e, apesar de todos os condicionalismos da sua época, conseguiram levar a cabo a realização de importantes acções culturais, cívicas e científicas. Bento de Jesus Caraça desenvolveu actividades importantes em várias áreas, nomeadamente com o seu envolvimento na Universidade Popular, com a criação e orientação da Biblioteca Cosmos, com a sua prática de matemático, tendo sido um dos fundadores do Centro dos Estudos Matemáticos Aplicados à Economia, em 1938, e da Sociedade Portuguesa de Matemática em 1940; e com a sua actividade de professor e pedagogo, vindo assistir às suas aulas no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras numerosos alunos de outras instituições, nomeadamente das Faculdades de Letras e de Ciências da Universidade de Lisboa.

A Associação Bento de Jesus Caraça foi constituída pela necessidade e importância que os seus fundadores sentiram na divulgação do pensamento e obra de Bento de Jesus Caraça, e nomeadamente em levar essa divulgação às gerações que o desconhecem e hoje vivem numa realidade completamente diferente da do Portugal dos anos 30 e 40 do século XX. Em 1933 Bento de Jesus Caraça realizou a conferência. “A cultura integral do indivíduo: problema central do nosso tempo”. O seu texto mantém toda a sua actualidade, e nele é de salientar a importância da concepção formulada por Caraça de cultura integral como meio de formação dos elementos de uma sociedade, como poderoso auxiliar na evolução e progresso dessa mesma sociedade, que queremos mais humana, mais justa e mais rica em todas as suas vertentes.
Estamos numa época em que o excesso descontrolado da informação e a falta da sua fiabilidade é regra, o que transforma numa questão de vital importância a capacidade de ajuizar fundamentadamente sobre o que nos é comunicado, saber distinguir o essencial do acessório, o propagandístico da reflexão pensada, decididamente não aceitando acriticamente e com o mesmo peso tudo o que nos é comunicado.

Por isso tudo hoje é ainda mais premente a questão da cultura integral, é a capacidade de ser critico perante tudo que nos rodeia, de questionarmos tudo o que nos é dado observar e adquirir. Por muito que nos digam o contrário, o futuro é construído por nós, desde que nos empenhemos com vontade e persistência, e saibamos congregar a comunidade nesse esforço comum.

Não esqueçamos uma das muitas importantes passagens do texto da “Cultura Integral do Indivíduo”:

Houve quem dissesse um dia que as gerações dos homens são como as das folhas, passam umas e vêm as outras. Está na nossa mão o desmentir o significado pessimista desta frase. Só figuram de folhas caídas, para uma geração, aquelas gerações anteriores cujo ideal de vida se concentrou egoísticamente em si, e que não cuidaram de construir para o futuro pela resolução, em bases largas, dos problemas que lhe estavam postos, numa elevada compreensão do seu significado humano.
Esta concentração egoísta tem um nome — traição — , e se hoje traímos, será esse o nosso destino, ser arredados com o pé, como se arreda um monte de folhas mortas.